quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Era uma vez um menino que queria pilotar. Suas brincadeiras sempre envolviam vôo. Mal lhe apareceu uma sombra de buço, começou a preencher os formulários para ingresso na Força Aérea. Foi interrompido por seu amado avô: "Você não vai, também, me dar este desgosto!". O menino, só então, veio a saber que seu pai havia perecido na queda de um avião. Ele tinha um ano e meio, agora tinha dezesseis.
O tempo passou, o menino seguiu outros rumos e transformou-se em homem feito. Eu.
Após meio século, sem chance de entristecer meu avô, resolvi aprender a voar. A pilotar. Realizar antigo sonho... Voar!
De dentro de meus enormes, pesados e famigerados cento e oito quilos, vivia recebendo negativas dos instrutores de vôo que procurava. Nenhum encarou sequer a correr na pista, comigo dentro de seu avião. Enquanto procurava, sem desistir, comecei o curso teórico. O curso acabando e... Nada! "Por que você não procura o Edgar?", perguntaram.
Encontrei, finalmente o Edgar. A agenda dele era prá lá de apertada. Reparei que sua primeira olhada para mim não exprimia um "que horror!" Ou, pior ainda, um "tô fora...". Era algo como uma avaliação, como se sua visão tivesse uma balança. Ao invés de pensar "mais um que vai dar uma desculpa", senti certa tranquilidade. Ele me perguntou se eu seria capaz de me apresentar para voar com a roupa mais leve possível, tipo nylon bem fininho, sapatilhas... Respondi que sim, claro. Combinamos uma manhã bem cedo (hoje sei porque: ar mais denso sustenta melhor a carga! :) e parti para comprar o meu primeiro "macacão-de-vôo", que nada mais era que um abrigo do nylon mais vagabundo do mundo, ching-ling brabo.
Obviamente não dormi, por mais que me esforçasse. Alegria, ansiedade, expectativas, comparações...
Fui de carro. Nem cuecas nem meias. Carteira no porta-luvas do carro e seu chaveiro na mesa do hangar. Por garantia, tiraram a bateria do aviãozinho.
Era como se Mestre Edgar me pegasse pela mão. Decolamos, voamos (voamos!) por uma fração de segundos que levou mais de hora... Depois do curso de instrução, sério, solei. Minha sensação era que todos meus entes queridos, ainda vivos ou não, compartilhavam meu assento de PILOTO, dentro do meu coração. Mestre Edgar no meio. Até hoje, como sempre, escuto seus conselhos.
O resto é história.

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